Uruçu, BrasilAcabo de retornar de Uruçu, um distrito rural pertencente a
São João do Cariri, na região central da Paraíba. São João tem 5.000 habitantes, e Uruçu tem 200. Passei 2 semanas por lá. O motivo é meu trabalho de "Lideranca de Processos", referente ao terceiro semestre da Kaospilots. Devia criar e facilitar um processo para um grupo de pessoas, aplicando os métodos, teorias e ferramentas aprendidos no curso (principalmente nesse 3o.semestre). Meu cliente é a
Fundacão CERTI, de Florianópolis, e o público-alvo foi a comunidade envolvida no
Projeto Água, moradores de Uruçu.
Coloquei as fotos online:
http://flickr.com/photos/vedana/sets/72157603064348613/Um projeto de sustentabilidadeO projeto Água, sendo executado pela Fundação CERTI, e as Universidades Federais de Santa Catarina (Laboratório de Hidroponia) e Campina Grande (Laboratório de Dessalinização), com o patrocínio da Petrobrás, prevê uma solução sustentável para o semi-árido: água, alimento e renda para algumas das áreas mais carentes do país. Esse projeto é um piloto que poderá ser replicado em diversos locais, caso dê certo.
O sub-solo do semi-árido Nordestino é rico em água, mas na sua maioria contém grande quantidade de sais. Existem equipamentos para remover a água potável dos sais, mas o sal jogado de volta ao solo causa um impacto ambiental muito grande, tornando a terra improdutiva. A sustentabilidade em questão é utilizar de alguma forma esse sal, dentro de uma cadeia produtiva. Existem algumas iniciativas e pesquisas na região utilizando essa água excedente, mas apenas parcialmente.
O diferencial do projeto Água é a proposta de utilizar essa água salgada para cultivar verduras em estufa, através da hidroponia, piscicultura de tilápias e a espirulina, uma micro-alga rica em proteínas e minerais, utilizada como complemento alimentar, atualmente sendo importado no Brasil. Com essas três culturas em pleno funcionamento, prevê-se a capacidade de absorsão total da água salgada, tornando o processo sustentável do ponto de vista ambiental.
No ponto de vista econômico, a comunidade teria um aumento na qualidade de vida, a partir do consumo desses produtos, e de sua venda ao mercado local e regional. Como a comunidade é composta na sua grande maioria de agricultores de subsistência, essa renda e trabalho pode provocar um salto qualitativo na comunidade, que se enche novamente de esperanças e aspirações.
Ainda no ponto de vista social, o projeto se concretizará numa cooperativa em que a comunidade será responsável por gerenciar, trazendo uma nova dinâmica de trabalho em comunidade, com empreendedorismo e trabalho em grupo, pelo grupo.
Dilemas de desenvolvimento e trabalho com comunidadesA Fundação CERTI tem trabalhado nos últimos seis meses com a comunidade de Uruçu, de forma a sensibilizá-los e capacitá-los para o trabalho, de forma a ganhar a confiança deles (de que esse projeto é sério e não outra promessa de político). Entretanto, para que a comunidade sinta-se empoderada e considere o projeto "deles", com capacidade de gestão, capacidade de tomar decisões e agir de forma crítica, um longo caminho precisa ser percorrido, e uma grande mudança cultural se faz necessária. Mais do que isso, é necessário que a cultura dos executores do projeto (Fundação e Universidades) e a cultura local dessa comunidade rural no interior do Nordeste se encontrem, e se entendam. Ou melhor, é necessário que os executadores estejam conscientes das diferencas culturais para que o projeto se adapte à realidade local. Essa "transferência" de liderança sobre o projeto, das mãos dos executores para as mãos dos habitantes de Uruçu, é portanto crucial para o sucesso ou fracasso do projeto.
E eu nessa história?Nesse contexto eu entrei no projeto, por curtas duas semanas, com a intenção inicial de trabalhar o comprometimento, trabalho em equipe, papel de liderança e a capacidade de assumir riscos e auto-confiança, com um grupo de 22 pessoas de Uruçu. Essas pessoas são as mais engajadas nos cursos que estão sendo ministrados nessas últimas semanas, e naturalmente espera-se que elas assumirão maiores responsabilidades na gestão da futura cooperativa.
Depois de participar numa reunião quinzenal do projeto, marquei as datas dos meus 3 encontros com eles, num total de 6 horas. Aproveitei os primeiros dias para fazer observações, visitas e conversas, muitas conversas com os moradores, desde crianças e adolescentes que já começam a querer se envolver no projeto, até o
Zé Cazuza, de 93 anos, a pessoa mais idosa do local, com sua lucidez e seus causos. Os 3 encontros foram um sucesso imediato, pela reação dos participantes, o feedback do cliente, e a minha própria sensação de dever cumprido. Resta saber sobre a continuidade e aplicação no dia-a-dia do projeto.
Me avisaram que me encantaria com as pessoas do agreste nordestino, e tenho que confirmar que é incrível a generosidade, a bondade e a alegria que encontrei por lá, pessoas com histórias incríveis (e difíceis), que vivem 7-8 meses por ano sem chuva, com sol de 40C e sem empregos. O descaso das autoridades públicas em todas as esferas é absurdo.
Ao ter entrevistas informais ou durante os encontros, percebi a inteligência e alta capacidade de pessoas aqui na comunidade, algo que enche todos os membros da equipe executora de otimismo e motivação. Por outro lado, esse potencial não está desabrochado, e em muitos casos acaba sendo reprimido e não explorado.
Escreverei mais após o retorno a Porto Alegre. Ainda estou no modo "observador", evitando tirar conclusões muito rápidas e com certeza equivocadas, resultado da minha vida urbana e domesticada (=estudei demais). Ter estado por lá me ajudou a rever várias hipóteses sobre a vida no campo, o papel da educação e a geração de riqueza... chego a dizer que
todo o Brasileiro urbano deve um dia sair de sua casa e conhecer o interior do Nordeste, para entender um pouco melhor a complexidade e riqueza cultural e social desse país.Estou no momento escrevendo o relatório final do trabalho realizado, a ser entregue nessa quarta-feira. Após a entrega, terei 10 dias para me preparar para uma prova oral, a ser realizada via Skype - a defesa da minha atuação em Uruçu.
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